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A CASA DAS MULHERES

Dra. Sandra Regina
 

Como ginecologista e mulher, sempre encontrei uma necessidade por parte das mulheres (e acredito que da parte dos homens também) de um trabalho diferenciado de auto-conhecimento.

Não é de estranhar que quando pequenos muitos de nós ficávamos no clube da “luluzinha” ou do “bolinha”, conforme o gênero. No íntimo, intuíamos que só se pode aprender a ser mulher com outra mulher (ou ser homem com outro homem). Um homem complementa uma mulher, mas somente outra mulher é capaz de compreendê-la.

Hoje não mais queremos um clube da “luluzinha” onde meninos não entram, mas necessitamos de uma “casa de mulheres” onde as MULHERES se encontram para compartilhar intimidades, aprender, ensinar, e acima de tudo, resgatar todo o potencial de Ser Mulher, sem vergonhas ou medos. Os homens são bem vindos nas nossas vidas, mas não neste momento tão especial, exclusivamente entre mulheres que nos permite reconhecer-nos e reencontrarmos a Deusa abafada dentro de nós.

 
 

Quando olhamos nossa sociedade percebemos uma organização social, econômica e política que tem como características as relações de poder e submissão.

Mas nem sempre foi assim...

Na pré-história, quando ainda não havia nem surgido a escrita, existia outra estrutura social: era uma sociedade matrilinear, onde a linhagem era definida pela mãe, que era considerada uma deusa geradora de vida e se desconhecia a participação do homem no processo da fecundação. Por isso, os filhos e filhas eram da comunidade e por todos cuidados e protegidos. Não havia ainda a exclusividade e posse. E os papeis femininos e masculinos eram bem definidos e complementares.

Com a descoberta da agricultura começou uma nova etapa civilizatória. Nesta época a mulher ainda tinha seu lugar de destaque pela sua força geradora de vida e muitos rituais de fertilidade eram realizados.



 
 

Mas com a barbárie, a sexualidade feminina passa a ser extremamente controlada e sua sacralidade é esvaziada. Os povos nômades destroem as aldeias pacíficas e conquistam, acabando com a arte e a cultura das localidades, tomando seus habitantes como escravos. Começa uma era de dominação e submissão, entre conquistador e conquistado e também entre o masculino e o feminino. Ou seja, ou Deuses da Guerra dominam as Deusas da Terra!

Instalou-se o patriarcado: o poder outrora partilhado entre homens e mulheres agora passava as mãos unicamente masculinas.

Seria leviano e simplista dizer que era uma guerra de sexos, é algo muito maior, é a perseguição dos princípios e dos valores do feminino, que existe dentro de todos nós: homens ou mulheres. Uma sociedade desprovida dos valores femininos (yin) torna-se uma sociedade dura e perversa, como tão bem vemos na idade média com as atrocidades da guerra santa e da inquisição. Em cidades como Torino 90% da população feminina foi morta, deixando uma marca profunda no coração de todas as mulheres que viveram a experiência e deixaram o medo como herança para aquelas que nasceram posteriormente gravados nos inconscientes coletivos de todas nós.

A sociedade que perseguia as bruxas foi substituída pela sociedade cientifica, que igualmente desqualifica os valores do feminino, supervalorizando o masculino (o que ainda hoje encontramos no nosso sistema educacional o que provoca tantas dificuldades de aprendizados para crianças mais criativas – yin).

Esta sociedade mecanicista levou a muitas lutas e depois de duas grandes guerras, nos anos 50 as mulheres que precisaram ir trabalhar para sobreviver (como sempre aconteceu nos momentos de guerra) não mais quiseram voltar para as atividades domésticas. Queriam uma sociedade mais igualitária. Nos anos 60 movimentos feministas explodiram pelo mundo. As mulheres olhavam para suas mães e não se identificavam mais com aquele modelo submisso e olharam para fora de si e encontraram um modelo masculino. Avançam em direção a ele, mas esse modelo estereotipado também não satisfaz. A mulher sente dentro de si um enorme vazio, a falta de Ser Mulher. Como apalpar o feminino completamente encoberto por um modelo masculino? Esta sociedade que queria um matriarcado também não satisfez...

Chegamos nos anos 80 e muitos são os questionamentos. Os homens também estão em crise, pois como lidar com essa mulher que não segue os padrões repetidos há tantas gerações?

E não nos enganemos acreditando que os homens tiveram alguma vantagem com os anos de patriarcado. O aparente privilégio custou muito caro. O preço que os homens pagaram? Não poder expressar sua sensibilidade, emoção, amor, aproximar-se ternamente dos filhos.... O homem dos anos 80 descobriu que os valores de masculinidade de seu pai já não eram garantia de sucesso ou estabilidade.

E depois de tudo isso, aqui estamos nós, em pleno século XXI, homens e mulheres, diante do grande desafio de resgatar a essência feminina! Muitos são os segredos guardados no inconsciente da humanidade. O caminho que parece totalmente novo e desconhecido tem suas raízes no passado longínquo, onde com a força ritualística dos arquétipos podem alcançar.  Os rituais de passagem há tanto tempo esquecidos vêm nos colocar em contato com nosso inconsciente e através desta linguagem simbólica resgatar nosso ser mulher. É hora da nossa sociedade sair da adolescência e assumir a maturidade.

Por isso criei alguns trabalhos apenas para mulheres. Uma "Casa das Mulheres", onde os homens (apenas temporariamente) não entram. Nestes momentos aprendemos e ensinamos a Ser Mulher. E com certeza depois disso com nossa feminilidade integrada não haverá mais motivo de tanta competição entre mulheres ou ressentimento com os homens.

 
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